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A AMIZADE DE TORCIDAS QUE NASCEU PARA LUTAR CONTRA A DITADURA

Almagro e Defensores Unidos, clubes da Argentina, se uniram dentro do estádio com cânticos contra a ditadura militar


Muro no estádio Tres de Febrero celebrando a amizade dos clubes. Foto: Carolina Chassot
Muro no estádio Tres de Febrero celebrando a amizade dos clubes. Foto: Carolina Chassot

Quando chegamos em frente ao estádio Tres de Febrero, casa do Almagro, na Argentina, percebemos que os grafites pintados nos muros contavam uma história que ia além do futebol.


Para contextualizar, muitos clubes argentinos carregam em sua trajetória um passado de resistência à ditadura militar e também à Guerra das Malvinas, tema que ainda hoje mobiliza parte da sociedade argentina. O futebol no país não ficou alheio a esse período sombrio da história. No museu do River Plate, por exemplo, um dos maiores clubes do país, há uma área inteira dedicada a esse momento, justamente para que ele nunca seja esquecido e não volte a se repetir.


Assim que encontramos Franco Zosso, responsável pelo marketing do Almagro, ele nos recebeu e começou a contar um pouco da história do clube. Além do vínculo com o Grêmio, que já citamos, ele fez questão de destacar outra relação especial: a amizade com o Defensores Unidos, iniciada em abril de 1982, durante uma partida válida pela Primera C, em Zárate.


Almagro e Defensores Unidos, clubes da Argentina, se uniram dentro do estádio com cânticos contra a ditadura militar
Torcida do CADU com bandeira em homenagem a amizade. Foto: Reprodução/X

Naquele período, a Argentina vivia um dos momentos de maior repressão da ditadura militar, além das mortes de jovens na Guerra das Malvinas. Ainda assim, como em muitos lugares do mundo, a vida seguia sob uma falsa normalidade. Foi nesse contexto que o duelo entre Almagro e Defensores Unidos entrou para a história.

Segundo os relatos históricos do clube, o início dessa amizade, porém, foi marcado pela violência. No dia 10 de abril de 1982, o ônibus que levava os torcedores do Almagro pegou o caminho errado e acabou encontrando a barra brava do CADU. A confusão entre as torcidas começou ali. Em determinado momento, um dos líderes da torcida do Defensores Unidos pediu que a briga parasse, ao perceber que os torcedores do Almagro estavam em menor número.


A partir dali, as duas torcidas se comprometeram a cantar durante a partida contra o regime militar, algo que era proibido à época. Dentro do estádio, o Exército partiu para cima da torcida do Defensores Unidos por causa dos cânticos, e os torcedores tricolores saltaram em defesa dos “rivais” contra os militares. Foi ali que nasceu a afinidade e a amizade entre as duas torcidas.


No dia 21 de agosto do mesmo ano, os clubes voltaram a se enfrentar, dessa vez na casa do Almagro, no estádio José Ingenieros. Novamente, as arquibancadas entoaram cânticos contra a ditadura militar.


Francisco nos contou que, ao final da partida, a torcida do Almagro escoltou a de Zárate até a Avenida General Paz, selando de vez uma amizade séria e comprometida, que foi sendo passada de geração em geração.

Durante a nossa visita ao estádio do Almagro, ficou claro o orgulho que o clube tem da forma como essa relação nasceu. Diferente de muitas alianças entre torcidas, que surgem por causa de um rival em comum, Almagro e Defensores Unidos se uniram por um sentimento de justiça. Francisco ainda lembrou que, na temporada 2007–2008, o Defensores Unidos chegou a usar como uniforme alternativo uma camisa com as cores e o desenho do Almagro, mantendo o próprio escudo.


  • Veja o tour completo no estádio do Almagro

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